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MARCO AURÉLIO SÁFADI - A infectologia no foco do pediatra
102 —“Se antes doenças como as pneumonias e as meningites estavam sob controle, agora vemos surtos como este da Vila Formosa, em São Paulo. Ele não é viral, mas causado por bactéria, o meningococo, que leva ao tipo de meningite mais grave e mata uma em cada cinco pessoas acometidas.”
Notícias da Saúde Infantil — O senhor é presidente do Departamento de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria e do Departamento de Imunizações da Sociedade de Pediatria de São Paulo. Quais foram as principais missões encampadas durante a pandemia e neste pós-pandemia? Marco Aurélio Sáfadi — Trabalhamos muito! Eu tenho 37 anos de formado e não me lembro de um período tão intenso, com poucas horas de sono e muitas no hospital, com os residentes, e investindo na geração de informação para os médicos. Fizemos dezenas de lives para esclarecer aspectos da doença, sobre como reconhecer síndrome inflamatória, a melhor maneira de tratar a covid em crianças e tudo que envolvia vacinas. Informamos a população leiga e demos consultoria para secretarias de Saúde e de Educação, recomendando a abertura das escolas. Aqui no estado de São Paulo essa reabertura foi bem-sucedida, servindo de exemplo para outros estados. Também escrevemos 15 artigos em revistas indexadas e revisadas por pares sobre diversos aspectos relacionados a doenças infectocontagiosas. Notícias da Saúde Infantil — Em relação a essas doenças, quais são os perigos da diminuição da cobertura vacinal que experimentamos atualmente no Brasil? Marco Aurélio Sáfadi — Vivemos uma situação paradoxal, pois as medidas de contingenciamento implementadas, como usar máscaras, fechar escolas e evitar aglomerações, contribuíram muito para reduzir doenças de transmissão respiratória. Nunca tivemos taxas tão baixas de incidência como entre 2020 e 2021. Mas, ao mesmo tempo, o cenário é preocupante porque as taxas de cobertura vacinal despencaram. Se antes doenças como as pneumonias e as meningites estavam sob controle, agora vemos surtos como este da Vila Formosa, em São Paulo. Ele não é viral, mas causado por bactéria, o meningococo, que leva ao tipo de meningite mais grave. Ela mata uma em cada cinco pessoas acometidas, e 20% dos curados têm algum tipo de sequela, seja neurológica, amputação de membros, visual ou auditiva. É uma doença imprevisível que acomete pessoas saudáveis e, apesar de ser rara, tem uma evolução dramática. Quem é vacinado tem uma proteção robusta, pois a vacina tem alta efetividade. Mas atualmente vivemos o risco de retorno de doenças já praticamente eliminadas, como a rubéola e a poliomielite. Não havia casos de sarampo por décadas e eles voltaram a aparecer em 2018, e desde então houve 40 mil infecções e 40 e poucas mortes no Brasil, a maioria em crianças. Para nenhuma dessas três doenças a nossa cobertura vacinal atingiu o número mágico, que é de 95% de forma homogênea. De fato, como estão, entre 50% e 70%, existe risco real de casos de paralisia infantil, o que seria desastroso.“As mídias sociais e as mentiras afetam a todos, e necessitamos recuperar a credibilidade por mecanismos que veiculem mensagens cercadas de evidências e dados confiáveis, que permitam que as informações integrem estratégias robustas de prevenção.”
Notícias da Saúde Infantil — O que é preciso fazer para proteger a população da varíola dos macacos? O que nos falta? Marco Aurélio Sáfadi — É um dos temas que abordei no congresso, pois é uma doença nova, que não circulava de forma endêmica fora da África e hoje está em mais de 10 países, com 60 mil casos, mas até o momento apenas 20 mortes, ou seja, uma taxa baixíssima de letalidade. Como os sintomas estão diferentes do que quando o vírus estava apenas no continente africano, o momento epidemiológico sugere uma eventual mutação do vírus, o que ainda está em análise. Mais de 95% dos acometidos são homens (em especial homens que fazem sexo com homens), mas é importante que o pediatra tenha contato com as características da doença para reconhecer e prevenir nas crianças e nos próprios profissionais da saúde. O Ministério da Saúde fez uma compra limitada da vacina e do medicamento, ou seja, não podemos utilizá-lo salvo em situação de gravidade. Mas a morte por varíola dos macacos é bem rara; ocorre em pacientes com HIV ou imunodepressão. Notícias da Saúde Infantil — Quais são os maiores desafios para a infectologia pediátrica e como vê essa área no futuro? Marco Aurélio Sáfadi — A área ganhou muita relevância na pandemia, com reconhecimento dos médicos infectologistas e dos epidemiologistas. O desafio se dá por esse cenário em que a ciência precisa combater inverdades que se tornaram uma regra do mundo contemporâneo. As mídias sociais e as mentiras afetam a todos, e necessitamos recuperar a credibilidade por mecanismos que veiculem mensagens cercadas de evidências e dados confiáveis, que permitam que as informações integrem estratégias robustas de prevenção. A humanidade aumentou a expectativa de vida de 50 para 80 anos. Diminuíram muitas das doenças infecciosas, e o aprimoramento das condições de vida gerou maior longevidade. No futuro, a medicina continuará tendo um importante papel na melhoria da qualidade de vida. Por Rede Galápagos Foto: Agliberto Lima Leia mais: Telemedicina: quais os riscos legais aos médicos O meio ambiente e o comportamento na cidade são desafios para a pediatria SUE ANN COSTA CLEMENS — Liderança e reconhecimento na corrida pela vacina CARLOS RODRIGUEZ MARTINEZ — Doenças respiratórias no centro da investigação GISELLE COELHO — O aprendizado em cirurgia no metaverso GONZALO VECINA — Em defesa das vacinas e da puericultura >>>> Baixe o livro O SABER PARA A SAÚDE INFANTIL – Os primeiros dez anos do Instituto PENSI